Andava eu a passear por alguns blogs que visito regularmente e dei com esta maravilha no Pó dos Livros.
O Jaime que me perdoe de copiar para aqui o texto dele mas é por uma boa causa e sei que tudo o que ele quer é promover a leitura.
Estou em crise. E quem não está?. Sou livreiro e não leio um livro seguido há mais de um mês. Estou a entrar em ressaca, com todos os sintomas que a ausência da leitura me traz. Consequentemente, sem ler, não consigo escrever, logo, nada como reciclar um post que explica exactamente como isto funciona:
– Pai, afinal ler não traz assim tantas vantagens…
- Como assim? Não te deu prazer ler?
- Sim, mas há muitas outras coisas que me dão prazer.
E, antes de conseguir explicar-lhe os resultados «maravilhosos» no teste de Português, o meu pai adiantou:
- Tens razão e essas coisas também são importantes. Vou tentar explicar-te de uma forma simples como é que o nosso cérebro funciona.
É preciso não esquecer que naquele tempo não havia computadores e, por isso, não era possível fazer essa comparação, como tantas vezes acontece hoje em dia.
- Imagina que o teu cérebro é um funil.
Dei uma gargalhada.
– Um funil, pai!?…
- Sim, um funil de cozinha. Esse funil tem de estar constantemente a ser alimentado com um líquido, que convém que seja o adequado às necessidades. Estás a conseguir visualizar?
Tentei fazer um ar sério e respondi:
– Sim, estou a imaginar. (E ria interiormente.)
- Já reparaste, com certeza, que quando se verte muito devagar um líquido num funil, esse líquido desaparece muito rapidamente?
- Sim.
- É isso que tens feito até agora, tens deitado pouco líquido no teu funil.
Este comentário provocou-me outra gargalhada.
O meu pai mantinha o semblante compenetrado.
- Por outro lado, quando se verte o líquido muito rapidamente, o funil enche depressa.
- Certo, pai!
- Depois, podemos até parar por um pouco e a sensação que temos a seguir é de que ele se esvazia muito devagar.
- Isso até eu sei! Já fiz essa experiência na escola.
- Agora imagina que esse líquido é a informação, o conhecimento adquirido através da leitura, da experiência e do estudo.
- Estou a perceber onde queres chegar… – Disse eu com uma expressão facial de algum desagrado.
- Óptimo… Então entendes que não tens outra alternativa a não ser estar constantemente a alimentá-lo, para que ele esteja sempre cheio. Doutra forma, ele ficará rapidamente vazio e o conhecimento que terás disponível para usares em teu benefício é simplesmente aquele que restou nas paredes húmidas do funil.
Nunca cheguei a mostrar-lhe o teste e, na altura, achei que o meu pai estava a brincar. A verdade é que resultou. Desde aí passei a dar mais importância à leitura e a ter melhores notas. Se ele ainda estivesse vivo, dir-lhe-ia que ainda hoje, depois de tantos anos, continuam a existir pessoas em Portugal que nunca leram um livro na vida, o que o deixaria incrédulo.
Não sei se de propósito, talvez para não me desincentivar, o meu pai não me contou toda a história. Faltou um pormenor «insignificante» acerca do processo de aprendizagem: o universo possível de conhecimento vai aumentando conforme se vai tendo noção da dimensão extrema da realidade. Esse universo é imenso e necessita de um enorme «funil» para ser alimentado, ainda que, no meu caso, esteja sempre irritantemente a ser despejado.

