Não resisto

Posted: Janeiro 16, 2011 in estórias
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Andava eu a passear por alguns blogs que visito regularmente e dei com esta maravilha no Pó dos Livros.

O Jaime que me perdoe de copiar para aqui o texto dele mas é por uma boa causa e sei que tudo o que ele quer é promover a leitura.

Estou em crise. E quem não está?. Sou livreiro e não leio um livro seguido há mais de um mês. Estou a entrar em ressaca, com todos os sintomas que a ausência da leitura me traz. Consequentemente, sem ler, não consigo escrever, logo, nada como reciclar um post que explica exactamente como isto funciona:

Demorei algum tempo a perceber os benefícios e prazeres da leitura. E isso só aconteceu tarde, na pré-adolescência; a leitura regular só mesmo na adolescência, para desespero do meu pai. Muitas vezes, coitado, tentava aconselhar-me alguns livros para ler, conselho que eu de forma determinada e inequívoca recusava. A esta atitude, o meu pai reagia apenas com um simples olhar de desprezo, e isso humilhava-me mais do que qualquer palavra de repreensão. Quando finalmente descobri a «pólvora» e comecei a ler, resolvi a certa altura começar a juntar todos os livros que lia, inclusive os de banda desenhada e os de leitura obrigatória da disciplina de Português, numa estante do meu quarto. Depois poderia exibi-los, quais troféus, ao meu pai. Ao fim de bastante tempo, muito mais do que o meu pai desejava, consegui decorar uma «extensíssima» prateleira com uns escassos dez livros (achava eu naquela época imenso), escolhidos por mim dos muitos postos à minha disposição (o que nunca faltou em minha casa foi livros). Porém, comecei a desconfiar dos efeitos benéficos da leitura, que tantas vezes me foram prometidos. Os resultados na escola eram os mesmos, isto é, medíocres. Os dotes oratórios não tinham melhorado por aí além e quanto aos conhecimentos adquiridos, noventa e nove por cento deles tinha-se pura e simplesmente desvanecido do meu cérebro. Aproveitei, como desculpa, o facto de ter tido uma negativa num teste e fui ter com o meu pai, a fim de lhe provar que a leitura não trazia benefícios evidentes:

– Pai, afinal ler não traz assim tantas vantagens…
– Como assim? Não te deu prazer ler?
– Sim, mas há muitas outras coisas que me dão prazer.
E, antes de conseguir explicar-lhe os resultados «maravilhosos» no teste de Português, o meu pai adiantou:
– Tens razão e essas coisas também são importantes. Vou tentar explicar-te de uma forma simples como é que o nosso cérebro funciona.
É preciso não esquecer que naquele tempo não havia computadores e, por isso, não era possível fazer essa comparação, como tantas vezes acontece hoje em dia.
– Imagina que o teu cérebro é um funil.
Dei uma gargalhada.
– Um funil, pai!?…
– Sim, um funil de cozinha. Esse funil tem de estar constantemente a ser alimentado com um líquido, que convém que seja o adequado às necessidades. Estás a conseguir visualizar?
Tentei fazer um ar sério e respondi:
– Sim, estou a imaginar. (E ria interiormente.)
– Já reparaste, com certeza, que quando se verte muito devagar um líquido num funil, esse líquido desaparece muito rapidamente?
– Sim.
– É isso que tens feito até agora, tens deitado pouco líquido no teu funil.
Este comentário provocou-me outra gargalhada.
O meu pai mantinha o semblante compenetrado.
– Por outro lado, quando se verte o líquido muito rapidamente, o funil enche depressa.
– Certo, pai!
– Depois, podemos até parar por um pouco e a sensação que temos a seguir é de que ele se esvazia muito devagar.
– Isso até eu sei! Já fiz essa experiência na escola.
– Agora imagina que esse líquido é a informação, o conhecimento adquirido através da leitura, da experiência e do estudo.
– Estou a perceber onde queres chegar… – Disse eu com uma expressão facial de algum desagrado.
– Óptimo… Então entendes que não tens outra alternativa a não ser estar constantemente a alimentá-lo, para que ele esteja sempre cheio. Doutra forma, ele ficará rapidamente vazio e o conhecimento que terás disponível para usares em teu benefício é simplesmente aquele que restou nas paredes húmidas do funil.

Nunca cheguei a mostrar-lhe o teste e, na altura, achei que o meu pai estava a brincar. A verdade é que resultou. Desde aí passei a dar mais importância à leitura e a ter melhores notas. Se ele ainda estivesse vivo, dir-lhe-ia que ainda hoje, depois de tantos anos, continuam a existir pessoas em Portugal que nunca leram um livro na vida, o que o deixaria incrédulo.
Não sei se de propósito, talvez para não me desincentivar, o meu pai não me contou toda a história. Faltou um pormenor «insignificante» acerca do processo de aprendizagem: o universo possível de conhecimento vai aumentando conforme se vai tendo noção da dimensão extrema da realidade. Esse universo é imenso e necessita de um enorme «funil» para ser alimentado, ainda que, no meu caso, esteja sempre irritantemente a ser despejado.

 

Jaime Bulhosa

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